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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Mulher de pescador...



Parte o barco

Parte-se coração

[Ela o conhece tanto quanto o mar]



*É urgente o amor
É urgente um barco no mar.



Dos grãos de areia,

Rosários de proteção

Das conchas,

Vento não tem tradução

Seu corpo,

Um cais deixado em vão



*Assim é o amor: mortal e navegável.



Ele sempre volta

[ela o conhece tanto quanto o mar]

De dentro puxa pesada corda

Descansa a rede na areia

Não tira peixes, nem sonhos

Só uma faca, sem fio, prateia



*— eu sei que são as mãos de um homem,
trêmulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.



Falseia esperança

Então, ela se faz sereia

[ela o conhece tanto quanto o mar]

Canta o silêncio para lhe encantar

E o desejo o desnorteia



*Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?



Ela solta-lhe as amarras

Arrasta-lhe

Em mergulho profundo

Afoga sem medo, seus medos

E dos beijos, arranca os segredos

[ela o conhece tanto quanto o mar]



*Despe-te
não há outro caminho.



Suas águas,

Plâncton fecundo

Lá, ele ancora seu mundo

e só depois, dorme um sono profundo


(Wania)



(*) as partes do texto em itálico

são excertos da poesia de Eugénio de Andrade