Foto de Annie Leibovitz/ Scarlett Johansson em “Cinderela”
Voltei ao trabalho. Chego no horário. Hospital lotado. Emergência cheia como sempre. Um clima mais ameno comparado aos dias que antecederam as minhas férias e que coincidiram com o “boom” dos casos de gripe “A” aqui. Aqueles sim foram dias difíceis, vivendo a legítima Medicina em tempos de guerra.
Nestes períodos de pandemia, requer-se um esforço sobre-humano dos médios e todo o pessoal que trabalha com Saúde Pública e acima de tudo uma paciência sem limites para suportar as reações de toda monta que as pessoas manifestam. Os médicos ocupam a mesma ingrata posição que ocupa o marisco: entre a rocha e o mar. De um lado as pessoas (pacientes) pressionando atitudes e querendo resultados imediatos (fazem o seu papel) e de outro os órgãos responsáveis “controlando” toda a situação.
Passei por horas muito difíceis, por situações insanas, por estresses desnecessários, por momentos de revolta e de profundo cansaço, físico e, principalmente, emocional vivenciando muitas coisas das quais eu não concordava, colocando a minha própria vida em risco. Infelizmente, isso é o nosso dia-a-dia, acentuado em tempos de crise, entretanto cada vez eu me convenço mais que somente quem faz Medicina por amor e vocação e que sobrevive a tudo isso. Não há nada maior que estimule um médico, nos dias atuais, a seguir sua carreira com responsabilidade e ética, porque o retorno financeiro é a cada ano, proporcionalmente menor para o esforço e a dedicação despedidos.
Nós, médicos, como CUIDADORES somos e sempre seremos cobrados, mas aqui eu paro e eu me pergunto: quem cuida do CUIDADOR? Faz muito tempo que o CUIDADOR não é valorizado neste cenário, então cabe ao próprio médico cuidar de si.
Foi isso que eu fiz: fui cuidar de mim! Volto agora, renovada e pronta para encarar mais um ano no front de batalha. Os inimigos são os mesmos, eles nunca nos dão trégua, mas eu não... estou muito mais forte para enfrentá-los!!