
Nosso amor começou oblíquo.
Enviesado desde o início.
Torto mesmo.
Bom, mas torto!
Alinhar é preciso?
Só a reta chega?
Fomos de lado,
... sempre de lado!
Eu gostei dele!
Quando novo pensou em vestir a batina.
Marcava encontros nos lugares mais movimentados.
Gostava de vê-lo chegar, agitando, atrapalhadamente,
a cabeça para me procurar,
assim como quem procura filho perdido em procissão.
Quando me achava, parava...
Inclinava a cabeça para o lado direito e...
armava uma covinha na bochecha do outro lado.
Depois, vinha ao meu encontro, correndo de braços abertos,
Crucificado.
Me dava quatro beijos.
Sempre quatro, nem mais, nem menos!
Acho que era o sinal da cruz que ele fazia na minha boca.
Minha língua ficava benta...
E eu lambia todos os seus pecados!
Não bebe a água deste poço... Marina se jogou aí dentro.
Meu tio repetia isso a cada hora cheia.
Minha avó o deserdava com os olhos.
Loucura não era nome de ninguém na sua família.
Meu avô baixava a cabeça para não ver a desonra que sentava ao lado.
Naquela casa ninguém bebia a água do poço.
Eu bebia a água da morta!
Poema feito à 4 mãos, na Oficina do Fabro!
Ele me conquistou pela insistência.
Quando me vi dentro, eu mesma corri e tranquei a porta.
Percorri todos os seus cômodos.
Na cozinha ele é mesa sempre posta.
Café bebido em pé, mas o carinho senta.
Ele, pão sovado recém saído do forno; eu, sempre margarina.
Carimba minha bochecha com seu bigode de leite quente.
Levo esta marca pro resto do meu dia. Água não tira.
Mexi em todas as suas prateleiras.
Sujei a louça inteira.
Me servi nas suas baixelas.
Lustrei a prataria.
Coloquei o faqueiro em uso.
Tirei o fio de suas facas. Lambi todas as colheres
Quarei as toalhas de linho.
No quarto ele é cama desarrumada.
Sono intranqüilo, saldo do dia.
Seu ressonar me diz as horas. Me aconchego no seu cansaço.
Corta meus pesadelos com a tesoura do seu abraço.
Me ama sempre como quem volta do exílio.
Seus beijos são as cartas de amor escritas que não chegaram.
Quando acorda, abre a cortina dos meus cabelos e escreve bom dia com a língua na minha nuca.
Desperto travesseiro de plumas.
Puxa os lençóis e me cobre de sol.
Na sala é sofá de 5 lugares. Casa sempre aberta.
Porta sem tranca. Capacho gasto.
Jogo na tv, vermelho sangue nas veias, ignorando a realeza.
É de poucas manias. Às vezes, plagio algum de seus hábitos para lembrá-lo na ausência.
Usa o cinto dois furos além do necessário. Se o amor tem pressa, atrapalha.
Faz da boca um til quando algo o desagrada.
Quando diminui o meu nome pra me chamar sei que não vem coisa boa.
Na hora de decidir é pêndulo de relógio.
Quando a felicidade engata o braço, teme o que ficará para trás.
Quando fica sozinho, teme o que virá pela frente.
(Wania)